O Drama das Escrituras, 3ª Ed.

Nas últimas décadas, narrativa ganhou destaque como uma categoria útil tanto na teologia quanto nos estudos bíblicos. Isso começou com a ascensão da teologia narrativa e apareceu nos estudos bíblicos principalmente em análises de trechos narrativos das Escrituras. Com a publicação de The Faith of Jesus Christ, de Richard Hays, em 1983, a narrativa tornou-se uma ferramenta interpretativa aplicada a uma ampla gama de gêneros bíblicos, o que é apropriado, dado que esta é uma categoria fundamental para a identidade humana e a transmissão cultural.

A obra atual, de Bartholomew e Goheen, é uma tentativa de ler a Bíblia como uma única narrativa coerente. Enquanto os últimos duzentos anos de crítica bíblica enfatizaram a diversidade presente na Bíblia, nossos autores destacam sua unidade, comparando-a a uma catedral com várias características que se tornam “portas diferentes pelas quais podemos obter uma perspectiva sobre toda a impressionante revelação de Deus” (p. 24, referência à edição americana).

A motivação para este projeto surge da convicção de que, a menos que os cristãos sejam constantemente renovados pela metanarrativa das Escrituras, sua cosmovisão(ões) será moldada pelos vários pontos de vista em circulação na cultura contemporânea, e que essas cosmovisões acabarão se tornando a(s) grade(s) através da qual os cristãos lerão as Escrituras. O resultado disso é que a Escritura será usada para endossar vários pontos de vista mundanos que, se a Bíblia fosse ouvida com clareza, seriam, na verdade, expostos como mundanos (pp. 19–72).

Os conceitos organizadores do drama bíblico são os temas de aliança e reino, os quais ambos “nos alertam sobre Deus como o grande rei sobre todas as coisas, que deseja ter um povo vivendo sob o seu reinado e espalhando o perfume de sua presença por toda a sua criação” (p. 25). Eles corretamente observam o caráter polêmico do relato da criação em Gênesis (pp. 31–32), ao mesmo tempo em que afirmam que ele foi elaborado para nos informar sobre os propósitos de Deus para a criação e o nosso lugar nela. Com habilidade, evitam se envolver em debates sobre a natureza dos dias em Gênesis 1 (p. 32) e sobre cronogramas escatológicos (pp. 207–213), enquanto também enfatizam a importância fundamental desses temas na trama bíblica. Sua abordagem sobre a natureza da queda em pecado é muito breve em comparação com outros atos do drama, mas é satisfatória, apontando para uma das características importantes desta obra: sua capacidade de ser abrangente enquanto conduz o leitor ao longo da narrativa. Ela nunca se atasca em discussões sem importância, nem se prolonga demais a ponto de perder o interesse do leitor. Sua discussão sobre a tensão paulina do “já/ainda não” é uma das mais claras e simples que existem (pp. 188–191), e o tratamento da missão da igreja do Novo Testamento, avançando para algumas aplicações à vida eclesiástica contemporânea, é bastante convincente (pp. 195–206).

Esta obra é um recurso bem-vindo para cursos de graduação sobre cosmovisão ou introduções à teologia cristã, mas também beneficiará enormemente qualquer pessoa interessada em compreender os impulsos centrais da narrativa das Escrituras.

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