A Hermenêutica Pura e Simples de Kevin Vanhoozer é um esforço criativo para reconciliar e integrar os estudos bíblicos e a teologia sistemática com uma visão renovada de interpretação fiel das Escrituras. Vanhoozer convida seus leitores, de forma imaginativa, para subir uma montanha sagrada, apropriando-se do termo “transfigurar” para descrever tanto o método quanto o telos da leitura. Hermenêutica Pura e Simples é uma obra minuciosa, abrangente e provocativa. Ela está destinada a eriçar tanto o exegeta quanto o teólogo, mas sua amplitude e integração ousada provavelmente a tornarão um texto de referência padrão no estudo da hermenêutica.
Vanhoozer tenta oferecer uma definição teologicamente adequada da chamada “leitura literal” da Escritura, um tema notoriamente espinhoso da hermenêutica. Alguns sustentam a leitura literal da Bíblia como um distintivo de autenticidade. Outros veem o texto apenas como palavras, sujeitas à dissecação crítica. A diferença, argumenta Vanhoozer, surge nas nossas culturas de leitura, os ambientes sociais que moldam e orientam a interpretação. Contra a moldura imanente e desencantada da modernidade, o imaginário social cristão lê a Bíblia a partir de uma perspectiva escatológico peculiar, uma cultura de leitura que é criada e sustentada pela Palavra. Mais do que analisar o texto, os leitores precisam situar-se dentro do mundo encantado do texto. Ambas as culturas de leitura dos estudos bíblicos e da teologia, portanto, devem ser formadas pela igreja “com um interesse distintamente teológico: conhecer e amar a Deus” (p. 102. Páginas referentes à edição americana).
Divergência sobre a interpretação literal, portanto, surge de quadros de referência diferentes. Vanhoozer define um quadro de referência escatológico necessário que preserva a forma e o conteúdo da Escritura como discurso divino e que reconhece a presença real de Deus no desenrolar da história. Fazer justiça à letra do texto significa permitir que o “imaginário bíblico” governe a leitura. É esse enquadramento escatológico que, no fim das contas, descobre um “sentido literal vinculado a Cristo” (p. 142) como norma suprema e cumprimento escatológico. Na verdade, a própria Bíblia exige ser lida teologicamente. Jogando com o significado das palavras “trans” e “figurar”, Vanhoozer descreve um tipo de leitura que é “trans-figural” (pp. 167–80). Rejeitando a moldura imanente tanto dos modernos quanto dos pós-modernos, Vanhoozer propõe uma interpretação figural1Não confundir figural com figurativo. Figural está mais ligado à tipologia. que corresponde à própria história e ao próprio imaginário das Escrituras, moldada por uma visão teológica.
Hermenêutica Pura e Simples é uma leitura figural da Bíblia que aprofunda o sentido literal. Em outras palavras, não é menos que literal, mas opera dentro de um quadro histórico-escatológico, no qual o leitor observa “a maneira como as figuras bíblicas se conectam ‘através’ dos tempos e testamentos para formar uma narrativa unificada e coerente centrada em Jesus Cristo” (p. 167). Vanhoozer explica: “A interpretação trans-figural orienta-se pela letra do texto, seguindo a intenção autoral divina em seu contexto canônico, ao longo de sua trajetória histórica-redentiva até seu destino cristológico” (p. 177). De fato, uma leitura literal exige uma interpretação teológica.
Vanhoozer faz uma guinada na parte 3 baseada em um hífen. Além de um sentido “trans-figurante”, os leitores precisam ler “transfiguralmente”, dentro da economia da luz e do padrão revelado na transfiguração de Cristo. A transfiguração, que permeia todo o projeto de escalada da montanha metafórica, chega ao seu brilho pleno no capítulo 7. Vanhoozer afirma que a mudança na figura de Jesus “é emblemática das mudanças exigidas em nossa leitura, e em nós como leitores, quando lemos a Bíblia teologicamente” (p. 226). Há uma analogia marcante entre o corpo transfigurado de Jesus e a letra do texto bíblico lida teologicamente. Assim como a humanidade de Jesus não é diminuída em sua glorificação, também a letra do texto bíblico não é diminuída por uma hermenêutica cristã pura e simples.
O autor mostra que ler de modo transfigural não só ilumina o texto, mas transforma o próprio leitor. Como interpretações teológicas engajam-se com as Escrituras como um diálogo com seu autor divino vivo, a interpretação transfigurante culminará “na transformação do leitor é efetuada ao contemplar a glória de Deus na face de Cristo” (p. 351). Uma leitura fiel exige uma disposição para “expor-se à luz branca incandescente” (p. 332) das Escrituras e, assim, ser transformado.
Em sua conclusão, Vanhoozer conclama para que a exegese bíblica e a teologia sistemática trabalhem lado a lado, contemplando o rosto radiante de Cristo no texto e “lendo para a glória do sentido literal com uma moldura de referência tanto histórica quanto escatológica” (p. 368). Em um apelo por uma reforma das culturas de leitura, Vanhoozer pergunta: “Em que tipo de comunidade de leitura estamos formando alunos de seminário e os fiéis da igreja, e com quais molduras de referência?” (p. 368). É a visão de uma “hermenêutica cristã pura e simples”, acredita Vanhoozer, que formará leitores capazes de dar um testemunho fiel e resplandecente da luz de Cristo.
A argumentação de Vanhoozer pode ser criticada por usar um jogo de palavras exagerado e por um argumento complexo. Além disso, o problema da chamada moldura imanente é um problema especialmente relevante no Ocidente secular. Ainda assim, Hermenêutica Pura e Simples apresenta uma visão convincente, e o amplo panorama de Vanhoozer sobre a história da interpretação e sua extensa pesquisa, acopladas a ideias ousadas e inovadoras e a termos inéditos, oferecem um recurso essencial e oportuno para a igreja. Ele chama atenção, com razão, abismos insalubres entre as disciplinas bíblicas e teológicas, e traça uma visão promissora para o futuro das comunidades de leitura transfiguradas, lidando com as Escrituras pelo que elas realmente são — discurso divino. Trabalhos futuros poderiam explorar o que esse tipo de leitura significa para a pregação e o ensino. Como uma leitura “transfigural” se relaciona com o discipulado ou com o estudo bíblico na igreja? Sem oferecer respostas, as perguntas de Vanhoozer são profundamente úteis e servirão à igreja e a formação de exegetas e teólogos por muitos anos.
Notas:
- 1Não confundir figural com figurativo. Figural está mais ligado à tipologia.