Certa vez, no início da minha caminhada cristã, eu recorri a um jovem teólogo razoavelmente conhecido em nosso país para fazer uma vídeo chamada. Eu era como qualquer recém-convertido – entusiasmado pelas verdades teológicas e, ao mesmo tempo, cheio de dúvidas e dilemas quanto às implicações da vida cristã. No fim das contas, saí da conversa decepcionado. Isso tudo porque depositei minhas incertezas aos pés daquele jovem estudado esperando por sabedoria e orientação, mas saindo somente com uma lista de mera recomendação de 8 ou 9 livros.
O Problema da Leitura Sem Digestão
Não culpo aquele jovem, mas infelizmente essa é uma atitude frequente até mesmo entre os mais experientes de nós. Lemos algumas dezenas de livros por ano sem absorver de fato seu conhecimento — isto é, quando lemos, afinal, todas as pesquisas indicam que o brasileiro lê pouco. Enquanto as pessoas esperam de nós, leitores, uma fonte de sabedoria, conseguimos dá-las somente a aridez do título, do nome do autor, e, talvez, de um capítulo que se lembra que, quando lido, foi interessante, e de mais nada.
Informação Não É Conhecimento
Talvez um dos motivos seja ler de forma errada. Na pressa de se ler muito, não se absorve nada. Harold Bloom fala da dificuldade que nossa sociedade tem entre discernir informação e conhecimento. No anseio pelo cumprimento da nossa lista literária, não conseguimos internalizar o argumento, extrair suas preciosidades e discernir suas implicações. Quando, na verdade, fazer essas coisas é proveitoso até na leitura de livros ruins; ao me encontrar com ideias, como diz Stuart Mill, ou mudarei de opinião ou fortalecerei a opinião que já tenho pela rejeição delas.
A Aplicação da Leitura: Exemplos Reais
Quando me deparo com alguém que não tem muita estima pela teologia, posso lembrá-la da ideia de Kevin Vanhoozer da Bíblia ser o roteiro de Deus (diretor) aguardando a interpretação fiel de seu povo (atores) para performar corretamente no seu teodrama (teatro). Àquele que pensa não ter problemas com orgulho, uma dose das ilustrações do Tim Keller em Ego Transformado certamente surtirá efeito; assim como a ideia do John Piper de que Deus é mais glorificado quando estamos mais contentes nele àquele que pensa ser a alegria em excesso algum tipo de mundanismo.
A Sabedoria Também Vem da Literatura
O cristão certamente pode se beneficiar de outros livros, como os de literatura. Ou será que há algum remédio mais potente para aquele que precisa de coragem do que contar a história de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas. Certamente, citações são de muita utilidade para transmitir conhecimento. No caso de Riobaldo, “o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela requer da gente é coragem”. Homero é tão bom quanto Guimarães Rosa nesse sentido, quando diz, “apoiada, a coragem nasce até mesmo naqueles que são muito covardes”. A famosa de Hamlet a Horácio é sempre marcante ao cético, “há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode sonhar tua filosofia”. Lembro sempre da Charlotte, personagem de Jane Austen, quando me deparo com alguém vaidoso demais, “o orgulho está mais relacionado à nossa opinião sobre nós mesmos, a vaidade ao que gostaríamos que os outros pensassem de nós”. Como esquecer a barca de Teseu, mito clássico sobre mudança e permanência — um navio que tem todas as suas partes substituídas, continua sendo o mesmo navio? —, quando alguém enfrenta uma crise de identidade em Cristo?
Não Só Recomende, Mas Alimente
Não me entenda errado, não estou dizendo que as recomendações de livros são ruins. Pelo contrário, afinal, quem nunca se beneficiou das dicas “você não pode passar dessa sem ler” do Jonas Madureira? O que digo, cristão, é que você transmita o seu conhecimento absorvido pelas leituras. Para isso, leia muito, mas com calma, medite no que leu, pense, dialogue com o autor, marque o quanto possível nos seus livros, ponha ideias à prova, ensine-as – internalize o livro. Durante um ano, marquei a minha Teologia Bíblica do Novo Testamento inteira do G. K. Beale, ensinava seus capítulos para mim mesmo até fazerem parte do meu ensino à igreja local. Lembre-se que as pessoas não estão em busca de meras listas bibliográfica, mas de alimento, e dessa forma você será capaz de transmitir a elas! Ofereça pão, não só cardápios!