A Teologia da Reforma em Perspectiva
Ler a obra de Richard Muller é sempre intelectualmente exigente, mas também educacionalmente recompensador, especialmente para aqueles interessados no papel que a contextualização histórica exerce na compreensão do pensamento de teólogos do passado. Calvino e a Tradição Reformada é mais uma contribuição magistral de teologia histórica da pena de Muller.
O livro reúne ensaios dedicados às doutrinas da obra salvífica de Cristo e à ordem da salvação, desde a Reforma do século XVI até a era da alta ortodoxia no século XVII. O leitor encontrará aqui discussões sobre uma variedade de assuntos, que vão desde questões metodológicas gerais nos capítulos 1 (“Da Reforma à Ortodoxia”) e 2 (“Calvino era calvinista?”), até análises altamente específicas, como no capítulo 5 (“Davenant e Du Moulin: abordagens variantes ao universalismo hipotético”) e no capítulo 8 (“Calvino, Beza e os reformados posteriores sobre a certeza da salvação e o ‘silogismo prático’”)1N.T.: O nome dos capítulos são traduções diretas da resenha. Eles podem aparecer diferente no livro.. À primeira vista, o livro parece ser voltado aos leitores já familiarizados com a obra anterior de Muller e com conceitos teológicos específicos. E há alguma verdade nisso, na medida que Muller pressupõe que seu público não é completamente desinformado da teologia reformada. No entanto, uma leitura atenta do prefácio e dos dois primeiros capítulos seria suficiente para apresentar a tese geral e a estrutura metodológica de Muller para aqueles que não os conhecem.
Argumento Central: Calvino e a Tradição Reformada
O argumento central do de Calvino e a Tradição Reformada é essencialmente a que Muller desenvolveu nas suas obras anteriores2N.T.: Muller é reconhecido por sua obra sobre a reforma e sobre Calvino. Sobre a reforma, de maneira ampla e profunda, sua Post-Reformation Reformed Dogmatics (2003), em quatro volumes, é um marco moderno de estudos dogmáticos sobre a Reforma. E particularmente sobre Calvino, seus dois volumes publicados na série de estudos de teologia histórica da universidade de Oxford são reconhecidos como brilhantes: The Unaccommodated Calvin: Studies in the Foundation of a Theological Tradition (2001) e After Calvin: Studies in the Development of a Theological Tradition (2003).: a tradição reformada não é um movimento monolítico na qual Calvino é o teólogo cuja teologia dominante dita as continuidades e descontinuidades conceituais do todo. Em particular, Muller, professor de teologia histórica no Calvin Theological Seminary, afirma que os relatos doutrinários dos teólogos da reforma sobre a obra de Cristo e a ordem da salvação não podem ser avaliados adequadamente se forem usadas caricaturas para avaliar conceitos como a expiação limitada, o universalismo hipotético e a união com Cristo. Muller reage contra aqueles que leram Calvino e seus sucessores através de suposições infundadas como a teoria de “Calvino contra os Calvinistas”, que coloca a teologia humanística de Calvino em oposição aos seus sucessores “calvinistas”, que sucumbiram aos perigos do escolasticismo, eventualmente resultando numa ortodoxia morta. Outra falha comum é a prática de impor um único assunto como o fator de controle para o conteúdo de outros — frequentemente assumindo a predestinação como o dogma central preferido.
Correção Metodológica
O cerne do argumento em Calvino e a Tradição Reformada é sustentado por dois elementos fundamentais: uma correção metodológica e sua aplicação à análise temática de assuntos teológicos específicos.
Primeiro, a correção metodológica aborda as “grandes narrativas” adotadas pela academia anteriormente sobre o desenvolvimento do pensamento desde a Reforma até a era da Ortodoxia Protestante. Segundo Muller, o problema com essas grandes narrativas é duplo:
(1) Elas se baseiam em “generalizações teológicas amplas” oriundas do período pós-iluminista, e, portanto, estranhas às teologias da Reforma e da pós-Reforma;
(2) Elas apoiam-se em pressupostos filosóficos moldados por uma visão pós-kantiana da história moderna.
O resultado é uma ruptura aguda entre o pensamento medieval e o da Reforma, baseada numa suposta relação antitética entre a escolástica e o humanismo. A teologia de Calvino, nesse cenário, acaba sendo retratada em tons exclusivamente humanistas—em oposição à sua antítese escolástica—como se fosse a única chave interpretativa para os desenvolvimentos doutrinários da Reforma à ortodoxia protestante. Com isso, vários teólogos reformados relevantes, como Heinrich Bullinger, Pierre Viret, Wolfgang Musculus, Andreas Hyperius, Peter Martyr Vermigli e John à Lasco, acabam sendo negligenciados.
Muller aplica essa correção metodológica ao estudo de diversos textos teológicos históricos que tratam da obra de Cristo e da ordem da salvação dentro da tradição reformada. Ele destaca as limitações de se buscar apenas continuidades e descontinuidades conceituais com base na teoria “Calvino versus os calvinistas”, especialmente quando toda a leitura histórica é moldada por agendas teológicas. Em vez disso, devemos situar o pensamento de Calvino em seu próprio contexto e analisá-lo em relação ao pensamento de seus contemporâneos. Só assim sua teologia pode ser corretamente entendida como parte de um desenvolvimento contínuo, e não como o resultado último e definitivo da tradição reformada. Em resumo, o pensamento de Calvino deve ser visto como uma ampliação da teologia de pensadores pré-reforma—da mesma forma que os teólogos da ortodoxia reformada devem ser compreendidos como desenvolvedores e ampliadores do pensamento dos reformadores como o próprio Calvino.
Desenvolvimento Interno na Tradição Reformada
De modo geral, Muller cumpre seu objetivo ao demonstrar que—ao contrário da crença popular—a tradição reformada dos séculos XVI e XVII, longe de ser um bloco monolítico guiado pela teologia de uma única figura, foi um movimento marcado por desenvolvimentos internos que resultaram em nuances doutrinárias legítimas. Além disso, Muller critica o que considera ser um uso equivocado de termos como “calvinismo” e do acrônimo popular, porém enganoso, “TULIP” para descrever a relação entre a teologia de Calvino e o restante da tradição reformada. Muller acerta ao afirmar que o uso indiscriminado da palavra “calvinismo” no discurso teológico e filosófico moderno resultou em uma visão distorcida tradição reformada. Do mesmo modo, Muller adverte contra os riscos de não controlar nossos impulsos anacrônicos ao ler teólogos antigos; por exemplo, quando a remota questão da “expiação limitada” é forçada excessivamente para se obter respostas na teologia de Calvino. De fato, Calvino abordou ocasionalmente a obra redentora de Cristo em sua extensão objetiva e aplicação subjetiva. Ele o fez reconhecendo—com certas qualificações—a distinção medieval entre a suficiência da obra salvífica de Cristo para todos e sua eficácia apenas para os eleitos. Nesse ponto, o pensamento de Calvino é mais bem compreendido ao enquadrá-lo na ideia de que o sacrifício de Cristo é “oferecido” a todos, sem distinção, mas “aplicado” somente aos eleitos. Por mais proeminente que Calvino seja para a tradição reformada, Muller argumenta com base nas evidências históricas que sua formulação para explicar o alcance da obra de Cristo é apenas uma entre várias existentes dentro da tradição reformada.
Conclusão: História e Teologia em Diálogo
Em suma, Calvino e a Tradição Reformada dá continuidade, de maneira convincente, à obra magistral de Muller sobre teologia histórica. É bem documentado e abrangente o suficiente para sustentar suas principais teses, além de teologicamente competente na exposição do material histórico tratado. Falta, contudo, uma explicação no excelente projeto de Muller: como o teólogo dogmático pode construir sua teologia mantendo um diálogo significativo com os teólogos do passado? Como o teólogo deve empregar o trabalho do historiador na construção de seu discurso teológico? Muller certamente não negaria o papel da teologia sistemática; afinal, sua obra — embora orientada historicamente — se baseia no trabalho de teólogos que buscaram articular coerentemente a fé cristã, tendo a Escritura como fundamento epistêmico. No entanto, não está totalmente claro no projeto de Muller como devemos integrar história e teologia sem sacrificar uma em detrimento da outra.
Notas:
- 1N.T.: O nome dos capítulos são traduções diretas da resenha. Eles podem aparecer diferente no livro.
- 2N.T.: Muller é reconhecido por sua obra sobre a reforma e sobre Calvino. Sobre a reforma, de maneira ampla e profunda, sua Post-Reformation Reformed Dogmatics (2003), em quatro volumes, é um marco moderno de estudos dogmáticos sobre a Reforma. E particularmente sobre Calvino, seus dois volumes publicados na série de estudos de teologia histórica da universidade de Oxford são reconhecidos como brilhantes: The Unaccommodated Calvin: Studies in the Foundation of a Theological Tradition (2001) e After Calvin: Studies in the Development of a Theological Tradition (2003).