A obra Inteligência Humilhada, de autoria do pastor Jonas Madureira, lançada por Edições Vida Nova, certamente representou um grande marco para a teologia brasileira, uma vez que nada semelhante (com um viés propedêutico ao estudo teológico e com o formato de um verdadeiro manifesto) podia ser encontrado entre os autores nacionais. Com uma belíssima capa, na qual há uma gravura muito sugestiva e apropriada ao tema do livro, e com 336 páginas impressas em papel avena, as quais proporcionam um considerável conforto na leitura, a Vida Nova lançou a primeira parte de um tema que, segundo o próprio autor, seria apenas o começo de uma série.1Palestra de lançamento do livro Inteligência Humilhada em Fortaleza, realizada na Escola Teológica Charles Spurgeon, em 14 de julho de 2017.
Jonas Madureira possui graduação e mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) com estágio sanduíche no Thomas-Institut, da Universität zu Köln (Alemanha). Tem experiência na área de Filosofia com ênfase em Epistemologia e Teoria da Cosmovisão. Atualmente, tem pesquisado sobre as origens filosóficas do conceito de “cosmovisão” e seu impacto tanto na Filosofia como em outras disciplinas como Literatura, Direito, Psicologia, Teologia, Arte e Cultura. É professor de filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie.2Extraído da plataforma Lattes. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/5533835882752031 > acesso 10 jun 2025. No âmbito teológico, é bacharel pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pelo Betel Brasileiro em São Paulo. Também é autor de O custo do discipulado: A doutrina da imitação de Cristo (2019) e Tomás de Aquino e o conhecimento de Deus: A imaginação a serviço da teologia (2021), também publicados por Edições Vida Nova. Atualmente pastoreia a Igreja Batista da Palavra, em São Paulo.
Como já ventilado, a obra tem um viés propedêutico, mas diferente de outras introduções à Teologia, esta não tem por escopo apresentar as principais doutrinas da Teologia Sistemática e introduzir o leitor nestes temas. Inteligência Humilhada aproxima-se mais de um manifesto, vez que persuade o leitor (e, neste caso, precipuamente o candidato a teólogo) a se despir de seus pré-conceitos e pré-juízos, que geralmente são fruto de uma postura intelectual arrogante, para então buscar o conhecimento de Deus.
Prefaciado pelo saudoso Dr. Russell Shedd, a obra se divide em cinco capítulos, a saber: Teologia diante de Deus, O conhecimento da desgraça, O Deus humilhado, A teologia do autoconhecimento e A traição dos teólogos.
O Dr. Madureira inicia a obra estabelecendo o vetor que orientará toda a argumentação: a inteligência humilhada não é a morte da razão, mas o reconhecimento de que esta deve se dobrar diante da fé. O autor, de forma brilhante, demonstra que este pensamento não é algo inovador, mas apenas o desenvolvimento do que pode ser encontrado nos escritos de grandes pensadores do passado, destacando-se Agostinho de Hipona, Anselmo da Cantuária, João Calvino, Blaise Pascal e Herman Dooyeweerd, e, a partir disso, desenvolve a argumentação, estabelecendo que para o teólogo fazer teologia primeiramente deve ser orientado pelo amor a Deus, o que implica numa atitude de temor e humildade.
Neste contexto, o primeiro capítulo argumenta no sentido de que a teologia deve ser feita diante de Deus, ou na expressão de Santo Agostinho, coram Deo, isto é, o esforço do teólogo para apresentar a verdade acerca do conhecimento de Deus deve ser feito na presença de Deus, e para Deus, que conhece todas as coisas. Por esta razão o teólogo deve manter uma postura de humildade, haja vista que tudo o que ele produz, seja falando ou escrevendo, já é conhecido por aquele para quem ele direciona seu trabalho.
Ainda no primeiro capítulo, destaque-se para o contraponto feio com a Alegoria da Caverna de Platão, demonstrando os pontos de contato e as dessemelhanças irreconciliáveis entre o pensamento platônico e o pensamento cristão acerca da libertação para o conhecimento.
Seguindo na argumentação, Jonas Madureira expõe a categoria de pensamento a qual a inteligência humilhada pertence, a saber, a monergista, segundo a qual não é possível se obter algum conhecimento de Deus sem que o próprio Deus propicie este conhecimento. Em outras palavras, o autor defende a total dependência do teólogo em relação à revelação de Deus para que seja possível produzir algum conhecimento de Deus. Esta dependência, que não é decorrente da Queda (haja vista a anterioridade da dependência em virtude da insuficiência humana), é motivo para que, despindo-se de qualquer arrogância, o homem venha reconhecer a condição de humilhação que lhe é inerente.
No tocante à revelação, o autor promove a distinção entre a revelação geral e a revelação especial, argumentando que a primeira não é suficiente para conduzir o homem ao conhecimento salvífico. De maneira muito didática, o Dr. Madureira faz uma analogia da revelação geral com o Diário Oficial, o jornal oficial dos órgãos públicos onde são publicadas as normas e atos da administração pública. Acreditamos que, neste ponto, o autor poderia ter utilizado algumas palavras mais precisas como “processo legislativo completo” no lugar de “processo forense completo”, e “os juristas chamam de vacatio legis” em vez de “os magistrados chamam de vacatio legis” (p. 82). Ressaltamos, entretanto, que de forma alguma o trabalho tem seu valor diminuído com essas observações3Não se trata de correções de informações equivocadas, mas apenas um preciosismo inerente à técnica jurídica. Ora, uma lei, antes de ser publicada no diário oficial, passa por um processo legislativo completo, e não um processo forense completo. A palavra “forense” remete à ideia de fórum, ou tribunal, e na verdade as leis não são elaboradas no âmbito do judiciário, e sim no legislativo. De semelhante modo, não são somente os magistrados, ou seja, aqueles que exercem o poder jurisdicional, como os juízes, desembargadores e ministros de tribunais superiores, que se utilizam da expressão vacatio legis para se referir ao intervalo de tempo entre a publicação e a entrada em vigor de uma lei. Talvez, o mais apropriado seria dizer que os juristas, de um modo geral, se utilizam dessa expressão latina.
Também destacamos a maneira precisa como autor critica a falácia dos autointitulados livres-pensadores, os quais rechaçam qualquer forma de limitação do pensamento, mas ao mesmo tempo não enxergam que sua forma de pensar é fruto de uma cosmovisão, e que esta possui em seu fundamento um sentimento religioso, o que de certa forma já é, em si, uma condição prévia para o desenvolvimento do pensamento.
O terceiro capítulo, “O Deus humilhado”, aborda os atributos da bondade e poder divinos, tocando no delicado problema do mal. Tomando por base o texto do credo apostólico, o autor argumenta sobre a suprarracionalidade de alguns mistérios das Escrituras, os quais não podem ser considerados contradições lógicas, mas também não podem ser explicados pela limitada mente humana. Eis aí mais uma razão para que o homem reconheça sua condição humilhada diante de Deus. Creio que o ponto alto deste capítulo jaz justamente numa análise do texto de Filipenses 2, que trata do estado de humilhação e exaltação de Cristo, e numa perspectiva eminentemente teológica, sem deixar de lado a perspectiva prática, o autor explica o estado kenótico de Cristo, como muitas teologias sistemáticas não conseguem, e ainda levanta uma importante questão: a da melhor interpretação para a phrónēsis de Cristo.
No capítulo 4, o que trata da teologia do autoconhecimento, o autor discorre sobre a necessidade de o homem conhecer a si próprio, argumentando que este conhecimento somente é possível a partir do verdadeiro conhecimento que se tem sobre Deus. Isto porque o conhecimento de Deus provoca a humildade e uma suspeita de si mesmo. Ora, com todas as limitações que lhe são inerentes, o homem deveria, acima de tudo, suspeitar acerca de si mesmo, pois o único conhecimento confiável é aquele oriundo de Deus.
Ainda neste capítulo 4, é promovida uma análise antropológica, que o autor considera sucinta, mas que na verdade se revela numa abordagem muito interessante e precisa acerca da constituição do homem. Assim sendo, o homem é estudado a partir da perspectiva bíblica, notadamente do Antigo Testamento, levando-se em consideração as palavras hebraicas néfesh [alma], leb/lebab [coração], basar [carne] e ruah[espírito]. Apesar da obra não pretender ser um tratado de teologia sistemática, a análise é bem detalhada, sem deixar de ser de fácil entendimento, haja vista a maneira leve como como autor apresenta os temas.
O último capítulo, “A traição dos teólogos”, trata sobre a tentação que os teólogos enfrentam de sucumbir ao secularismo. O teólogo, nessa perspectiva, deve se manter fiel à cosmovisão cristã, e isto somente é possível se o mesmo, nas palavras de Agostinho, tiver sido ferido pela Palavra de Deus. O autor dedica algumas laudas para conceituar cosmovisão, destrinchando o conceito já apresentado por James W. Sire, e então arremata a questão, explicando que a traição do teólogo se dá quando este abandona a cosmovisão cristã para abraçar o secularismo disfarçado de teologia.
Por fim, o autor apresenta um estudo de caso, no qual traz a biografia do fundamentalista Carl Henry, que defendeu o ponto de equilíbrio entre a defesa da ortodoxia bíblica e o engajamento do cristão nas problemáticas do mundo. A biografia de Carl Henry é apresentada ao longo de várias laudas deste último capítulo, a qual ocupou grande parte dele, e em nossa visão, quebrou um pouco o ritmo impresso pelas ideias em torno do conceito de inteligência humilhada, o qual somente é tratado de forma mais explícita no final do capítulo, momento em que, inclusive, a teologia racionalista de Carl Henry também recebe críticas pelo autor.
A conclusão da obra é, e não poderia deixar de ser, uma oração. Todo labor teológico deve terminar num momento de doxologia, pois é impossível pensar acerca de Deus e não o adorar. Não há como estar diante dele e não se reconhecer pequeno e limitado. Portanto, com uma belíssima oração, o pastor Jonas conclui sua belíssima obra, demonstrando com o próprio exemplo a forma como devem proceder aqueles que se propõem a fazer teologia coram Deo.
Textualidade leve, coerência de pensamento, coesão entre os capítulos, além de um belíssimo trabalho editorial: eis as características marcantes do livro em comento. A obra Inteligência humilhada é um verdadeiro convite à reflexão, que corrige muitos pensamentos equivocados dos neófitos no labor teológico, assim como os de veteranos que, até por estudarem há mais tempo, muitas vezes já se acham autossuficientes, e precisam reconhecer sua insignificância diante de Deus. O livro também se constitui em obra altamente recomendável para todo o cristão que deseja ser edificado, haja vista que não foi escrita somente para os acadêmicos, mas como o próprio autor admitiu, este não teve qualquer “pudor” ao direcionar a obra, ora escrevendo como um pastor para suas ovelhas, ora escrevendo como teólogo para teólogos.4Palestra de lançamento do livro Inteligência Humilhada em Fortaleza (…). A obra pode, e deve, ser lida por todos, sem contraindicações!
Notas:
- 1Palestra de lançamento do livro Inteligência Humilhada em Fortaleza, realizada na Escola Teológica Charles Spurgeon, em 14 de julho de 2017.
- 2Extraído da plataforma Lattes. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/5533835882752031 > acesso 10 jun 2025.
- 3Não se trata de correções de informações equivocadas, mas apenas um preciosismo inerente à técnica jurídica. Ora, uma lei, antes de ser publicada no diário oficial, passa por um processo legislativo completo, e não um processo forense completo. A palavra “forense” remete à ideia de fórum, ou tribunal, e na verdade as leis não são elaboradas no âmbito do judiciário, e sim no legislativo. De semelhante modo, não são somente os magistrados, ou seja, aqueles que exercem o poder jurisdicional, como os juízes, desembargadores e ministros de tribunais superiores, que se utilizam da expressão vacatio legis para se referir ao intervalo de tempo entre a publicação e a entrada em vigor de uma lei. Talvez, o mais apropriado seria dizer que os juristas, de um modo geral, se utilizam dessa expressão latina.
- 4Palestra de lançamento do livro Inteligência Humilhada em Fortaleza (…).